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Série liderada por indígenas destaca preservação cultural na TV Brasil

Gente de Verdade retrata o povo Paiter Suruí e reforça protagonismo indígena em série documental na emissora pública

22/04/2026 às 21:42
Por: Redação

A iniciativa Seleção TV Brasil, promovida por meio de chamada pública, selecionou a série documental Gente de Verdade, uma produção protagonizada e conduzida por indígenas voltada à valorização da memória e identidade do povo Paiter Suruí, localizado na região amazônica brasileira.

 

A série faz parte do grupo de obras escolhidas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), tendo como fonte de recursos o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). O projeto integra um investimento total de 109 milhões, 889 mil, 224 reais e 78 centavos destinado a 39 produções contratadas, valor que, segundo a EBC, representa o maior aporte já destinado pelo poder público para produções audiovisuais feitas especialmente para a televisão pública.

 

Essa ação compõe o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), desenvolvido pelo Ministério da Cultura (MinC) em parceria com a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

 

Selecionada na categoria Sociedade e Cultura, a série Gente de Verdade está ambientada na Terra Indígena Sete de Setembro, localizada entre Rondônia e Mato Grosso, território habitado pelo povo Paiter Suruí. Esse grupo indígena estabeleceu o primeiro contato com não indígenas há pouco mais de meio século e, desde então, vivencia transformações profundas em seu modo de vida, incluindo o desaparecimento de práticas tradicionais, substituição de pajés por igrejas e o abandono de rituais. A língua tupi mondé, originária do povo, também sofreu retrocesso entre os mais jovens.

 

A narrativa acompanha quatro personagens de três gerações diferentes: Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy. Esses protagonistas enfrentam desafios relacionados ao fortalecimento da identidade Suruí diante das mudanças impulsionadas pela presença da fé cristã, da urbanização e da tecnologia. Temas como ancestralidade, pertencimento e as dificuldades de equilibrar tradição e modernidade são tratados ao longo dos episódios.

 

Gente de Verdade é composta por oito episódios, cada um com 26 minutos de duração, e tem como diferencial narrativo o fato de ser conduzida pelos próprios indígenas, oferecendo uma perspectiva interna e autêntica sobre o cotidiano e os dilemas do povo Suruí. O enredo se baseia na descoberta de um acervo visual criado por um fotógrafo alemão no primeiro contato da comunidade com não indígenas na década de 1970. Esse acervo passa a ser um ponto central para a discussão sobre memória coletiva, espiritualidade e identidade, especialmente sobre o dilema de resgatar essas imagens sem contrariar crenças ou tradições que proíbem até mesmo mencionar os mortos.

 

Antonia Pellegrino, presidente da EBC, que coordenou a Seleção TV Brasil quando ocupava a Diretoria de Conteúdo e Programação, ressaltou o potencial do projeto para vencer editais e destacou a escolha dos realizadores em inscrevê-lo para exibição em uma emissora pública nacional.

 

Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades.

 

Liderança indígena no audiovisual

 

A série foi idealizada com direção de Ubiratan Suruí, cineasta pertencente ao povo retratado, e roteiro assinado por Natália Tupi, profissional indígena do audiovisual. O diferencial da produção está na valorização de narrativas que nascem da vivência direta dos realizadores nos territórios indígenas.

 

Segundo Ubiratan Suruí, a autenticidade e o protagonismo do projeto decorrem do fato de que toda a construção narrativa é feita pelos próprios indígenas.

 

Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.

 

O diretor também afirmou que a exibição de uma obra indígena em rede nacional representa um avanço significativo, já que a TV Brasil, por ser pública e de alcance em todo o país, proporciona maior acesso às histórias indígenas, contribuindo para promover diálogo, respeito e reconhecimento.

 

Ver uma obra indígena sendo exibida na TV Brasil é um avanço muito importante. Por ser um canal público e de alcance nacional, abre espaço para que mais pessoas conheçam nossas histórias. Isso ajuda a criar diálogo, respeito e reconhecimento. Quando a gente ocupa esse espaço, a gente quebra a invisibilidade e faz com que o Brasil escute, de verdade, as vozes dos povos originários.

 

Acervo visual e exposição cultural

 

No ano anterior, o Instituto Moreira Salles (IMS) realizou em São Paulo a exposição Paiter Suruí, Gente de Verdade, apresentando 800 imagens captadas desde a chegada das câmeras à Terra Indígena Sete de Setembro nos anos 1970. O evento proporcionou um mergulho nas memórias, tradições, experiências afetivas, no cotidiano e na resistência do povo Paiter Suruí. A mostra permanece disponível para acesso digital por meio do site do IMS.

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