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Projeto em Itaipu pode dobrar geração de energia com painéis solares

Painéis solares, hidrogênio verde e biogás ampliam alternativas energéticas no complexo de Itaipu.

21/04/2026 às 22:58
Por: Redação

O reservatório da hidrelétrica de Itaipu, localizado na fronteira entre Brasil e Paraguai, no Sul do país, possui cerca de 1,3 mil quilômetros quadrados de perímetro. Sua extensão chega a quase 170 quilômetros, desde a barragem até o ponto oposto, e a largura média do lago é de 7 quilômetros entre as margens direita e esquerda.

 

Toda a potência hidrelétrica do trecho alagado do Rio Paraná, responsável por acionar turbinas que alcançam até 14 mil megawatts de geração elétrica, pode ser complementada com a instalação de painéis solares fotovoltaicos sobre a superfície da água. Desde o final do ano anterior, engenheiros brasileiros e paraguaios analisam experimentalmente essa alternativa na usina de Itaipu.

 

Atualmente, 1.584 placas solares estão posicionadas em uma área inferior a 10 mil metros quadrados no lago, situadas a apenas 15 metros de uma das margens no lado paraguaio, em local com cerca de 7 metros de profundidade. A estrutura é capaz de fornecer 1 megawatt-pico (MWp), unidade que indica a capacidade máxima de produção. Esse volume energético supre o consumo de aproximadamente 650 residências, sendo destinado apenas ao uso próprio da usina, sem integração com o sistema hidrelétrico e sem venda externa.

 

O propósito atual da chamada "ilha solar" de Itaipu é atuar como ambiente de testes para futuras aplicações comerciais. Os profissionais envolvidos avaliam aspectos como a interação dos painéis com o ecossistema, incluindo possíveis alterações no comportamento de peixes, algas, variação de temperatura da água, influência dos ventos nas placas, estabilidade dos flutuadores e métodos de ancoragem no fundo do reservatório.

 

Para que a expansão desse tipo de geração de energia aconteça em escala comercial, será necessário atualizar o Tratado de Itaipu, assinado em 1973 entre Brasil e Paraguai, que regulamenta a operação da usina e viabilizou sua construção e funcionamento em conjunto.

 

"Se falarmos em um potencial bem teórico, uma área de 10% do reservatório, coberta com placas solares, seria o mesmo que outra usina de Itaipu, em termos de capacidade de geração. Claro que isso não está no planos, pois seria uma área muito grande e depende ainda de muitos estudos, mas mostra o potencial dessa pesquisa", apontou o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Rogério Meneghetti.


 

Estimativas iniciais apontam que seriam necessários pelo menos quatro anos para instalação de infraestrutura capaz de gerar 3 mil megawatts via energia solar, o que corresponde a 20% da potência instalada da usina hidrelétrica atualmente.

 

O investimento direcionado ao projeto soma 854,5 mil dólares, o equivalente a cerca de 4,3 milhões de reais de acordo com a cotação vigente. A obra foi executada por um consórcio binacional, formado pela empresa brasileira Sunlution e pela paraguaia Luxacril, vencedor da licitação.

 

Novas tecnologias e fontes alternativas em desenvolvimento

A diversificação das matrizes energéticas em Itaipu não se restringe à energia solar. No complexo da usina, avançam projetos de hidrogênio verde e desenvolvimento de baterias para armazenamento, além de iniciativas ligadas ao biogás.

 

No Itaipu Parquetec, voltado para inovação e tecnologia desde 2003 em Foz do Iguaçu (PR), existem parcerias com universidades, empresas públicas e privadas. O local já formou mais de 550 mestres e doutores em distintas áreas do conhecimento.

 

O Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec realiza pesquisas voltadas à produção de hidrogênio verde, denominado sustentável por não emitir gás carbônico (CO₂) em seu processo. A metodologia utilizada é a eletrólise da água, processo que separa elementos químicos das moléculas de água (H₂O) por meio de equipamentos automatizados em laboratório.

 

O hidrogênio verde possui aplicação em setores industriais como siderurgia, indústria química, petroquímica, agricultura, alimentação e também pode ser empregado como combustível em transportes e geração de energia. A unidade instalada em Itaipu serve como plataforma para experimentação e validação de projetos pilotos.

 

"Nós somos uma plataforma tecnológica, então trabalhamos para atender, por exemplo, projetos de pesquisa [científica] ou projetos para indústria nacional. Existem algumas empresas nacionais que estão fazendo seus desenvolvimentos de carreta [movida] a hidrogênio, de ônibus a hidrogênio, por exemplo. Aqui é o lugar para testar e validar esses projetos", explica Daniel Cantani, gerente do Centro de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec.


 

Entre os exemplos de aplicação, um barco movido a hidrogênio desenvolvido no parque tecnológico foi apresentado na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, e será utilizado para coleta seletiva nas comunidades ribeirinhas próximas à capital paraense.

 

Outra linha de atuação do Itaipu Parquetec é a pesquisa sobre células e protótipos para produção e reaproveitamento de baterias, destinadas ao armazenamento de energia elétrica. O foco está nos sistemas estacionários, como empresas ou instalações fixas, que exigem reservas energéticas para operação contínua.

 

Biogás e produção de combustíveis limpos

No âmbito da Itaipu Binacional, são realizados experimentos para produção de biogás a partir de resíduos orgânicos provenientes dos restaurantes das instalações, bem como de materiais apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento durante fiscalizações na fronteira.

 

Os resíduos, em vez de serem descartados em aterros, passam por tratamento de biodigestão em grandes tanques, transformando-se em biogás e biometano. Estes combustíveis alimentam veículos automotores utilizados dentro do complexo da usina, por meio de cilindros de gás adequados para esse fim.

 

No dia 13 de abril, ocorreu a reinauguração da Unidade de Demonstração de Biocombustíveis de Itaipu. Essa estrutura é administrada pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), empresa criada pela própria usina para soluções voltadas a combustíveis limpos.

 

Desde o início das operações, há cerca de nove anos, já foram processadas mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos, resultando na produção de biometano suficiente para percorrer aproximadamente 480 mil quilômetros, o que equivaleria a 12 voltas ao redor do planeta.

 

Na mesma planta, realiza-se ainda o desenvolvimento experimental do bio-syncrude, um óleo sintético que pode ser empregado na fabricação de Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês).

 

"Eu acredito que nos próximos 10 anos, nós vamos ver muito sobre os combustíveis avançados. Vamos ouvir muito sobre o hidrogênio, sobre o SAF, inclusive por conta da lei de combustíveis futuro, que vem aí com mandato. Biometano e SAF são os assuntos do momento", destaca Daiana Gotardo, diretora técnica do CIBiogás.


 

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