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Projeto analisa origem das tartarugas em Arraial do Cabo

Pesquisadores coletam dados genéticos para mapear migração e saúde de tartarugas na região

21/04/2026 às 16:12
Por: Redação

Mergulhadores utilizando caiaque realizam atividades de pesquisa no mar da Praia do Pontal, localizada na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Eles partem até cerca de duzentos metros da faixa de areia e capturam tartarugas marinhas, retornando rapidamente à embarcação após cada mergulho.

 

Essa ação é parte de um monitoramento da saúde das tartarugas que vivem na região. O trabalho integra o Projeto Costão Rochoso, coordenado pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental. O objetivo principal da iniciativa é reunir evidências científicas sobre a preservação e a restauração dos costões rochosos, ambiente de transição entre o oceano e o continente.

 

O projeto, realizado em parceria com a Petrobras, tem como um de seus principais desafios descobrir a procedência das tartarugas que habitam Arraial do Cabo, uma vez que a área litorânea é reconhecida por concentrar a maior quantidade de tartarugas-verdes do país em zonas de alimentação.

 

A bióloga Juliana Fonseca, uma das fundadoras da iniciativa, explica que todas as cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil podem ser avistadas em Arraial do Cabo.

 

Exames detalhados e coleta de amostras

Após a captura, as tartarugas são levadas até a areia, onde passam por uma série de exames, incluindo pesagem, medição e coleta de tecido, semelhante a uma biópsia. O objetivo é investigar a origem dos animais.

 

A bióloga detalha: “Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora”.

 

A identificação da origem permite compreender quais populações utilizam a região como área de alimentação, além de estabelecer a conexão entre as zonas de desova e alimentação das espécies.

 

Segundo Juliana Fonseca, as tartarugas podem viver aproximadamente setenta e cinco anos, permanecendo em média dez deles nas águas de Arraial do Cabo, embora algumas fiquem até vinte e cinco anos antes de retornarem ao local de nascimento para se reproduzir. As tartarugas chegam jovens e pequenas ao litoral fluminense, desenvolvendo-se na região.

 

Ela explica: “São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos”.

 

Monitoramento, identificação e análises genéticas

O acompanhamento realizado pelo projeto envolve a tartaruga-verde e a tartaruga-pente em três praias do município – Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal – além da Ilha de Cabo Frio, todas dentro da reserva marinha. No monitoramento, são medidos casco, nadadeiras, rabo e unhas dos animais.

 

Juliana Fonseca afirma: “É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”.

 

Para identificar indivíduos, os pesquisadores utilizam fotografias e softwares de computador, já que cada tartaruga apresenta combinações únicas de placas na cabeça, o que, segundo eles, funciona como uma impressão digital.

 

Desde 2018 foram catalogados cerca de quinhentos indivíduos, sendo que oitenta passaram por coleta de material genético. As análises de DNA, realizadas em colaboração com a Universidade Federal Fluminense (UFF), têm previsão de resultados em até seis meses.

 

Interação humana e impactos no comportamento das tartarugas

O projeto também estuda até que distância as tartarugas aceitam a aproximação de pessoas. Essa pesquisa tem o objetivo de entender melhor os limites de interação entre humanos e animais no ambiente marinho.

 

A mergulhadora envolvida no projeto observa: “As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”.

 

O método de estudo consiste em simular aproximações e registrar a distância mínima tolerada antes de alterações no comportamento das tartarugas. Esses dados servirão de base para a elaboração de um guia de boas práticas para observação de tartarugas marinhas, que poderá ser utilizado em atividades turísticas tanto em Arraial do Cabo quanto em outras regiões do Brasil e do exterior.

 

Durante os procedimentos de coleta e exame, é comum a aproximação de banhistas, incluindo crianças, que frequentemente questionam a situação dos animais. Os integrantes do projeto esclarecem, em todos os momentos, que o objetivo da atividade é a preservação das espécies. Próximo ao local reservado para os procedimentos, há placas informando a proibição de tocar nos animais marinhos.

 

Regulamentação e preparo técnico para pesquisa

A pesquisadora Isabella Ferreira explica que para realizar a captura das tartarugas é necessário possuir formação em áreas como biologia, veterinária ou oceanografia.

 

Além disso, todas as atividades dependem de autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, organização criada em 1980 e considerada referência internacional em conservação marinha.

 

Ela explica que toda a rotina do projeto, desde captura, marcação e fotografia das tartarugas, exige autorização prévia. Cada ida ao local é comunicada aos guardas ambientais, apresentando as permissões necessárias.

 

O trabalho de reportagem, incluindo entrevistas e fotografias, foi realizado com apoio da Petrobras, parceira do Projeto Costão Rochoso.

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