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Lula cobra coerência de progressistas e alerta sobre riscos da extrema-direita

Em Barcelona, presidente brasileiro discursou para milhares, criticou o neoliberalismo e o papel de bilionários na desigualdade global.

18/04/2026 às 20:27
Por: Redação

Em sua agenda internacional pela Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, na tarde do último sábado (18), em Barcelona, na Espanha, da primeira edição do evento Mobilização Progressista Global (MPG). Diante de uma plateia de milhares de pessoas, incluindo outros chefes de Estado, o líder brasileiro fez um apelo por coerência entre os progressistas e emitiu um alerta sobre o avanço das forças autoritárias de extrema-direita.

 

O encontro, que reuniu ativistas e organizações de esquerda de diversas partes do mundo, tem como objetivo principal a defesa da democracia com justiça social, além de combater o progresso de grupos autoritários. Lula iniciou seu discurso em um centro de eventos com mais de 5 mil presentes, afirmando que não se deve ter receio de se identificar como progressista ou de esquerda no cenário atual.

 

"Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade".

 

O presidente destacou as conquistas alcançadas pelo campo progressista para grupos sociais como trabalhadores, mulheres, a população negra e a comunidade LGBTQIA+. Contudo, ele ressaltou que a esquerda não conseguiu superar o domínio do pensamento econômico vigente, o que teria aberto espaço para o crescimento de forças reacionárias na sociedade.

 

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.

 

Lula enfatizou que a coerência deve ser o mandamento primordial para os progressistas brasileiros. Ele defendeu que não se pode ser eleito com uma plataforma e depois implementar outra, traindo a confiança popular. Segundo o presidente, mesmo que parte da população não se veja como progressista, ela busca as propostas defendidas por esse campo político, como uma alimentação adequada, moradia digna, escolas de qualidade, hospitais eficientes, uma política climática séria e responsável, um meio ambiente limpo e saudável, trabalho digno com jornada equilibrada e um salário que permita uma vida confortável.

 

O presidente também analisou a ascensão da extrema-direita, explicando que ela soube explorar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. Essa corrente política, conforme Lula, “canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas, que passaram a ser vítimas do discurso de ódio”.

 

Mais cedo, no mesmo dia em Barcelona, o presidente brasileiro participou da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, ao lado de outros líderes internacionais. Este evento, uma iniciativa lançada em 2024, envolve os governos do Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A reunião na cidade espanhola foi organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, e contou com a presença dos presidentes Yamandú Orsi, do Uruguai; Gustavo Petro, da Colômbia; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; e Claudia Sheinbaum, do México, além do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.

 

Dirigindo-se à audiência de ativistas progressistas, Lula apontou que os verdadeiros responsáveis pela crise socioeconômica atual são os poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza global. Ele argumentou que esses indivíduos “querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam os algoritmos”. Lula concluiu que “a desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas, é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo”.

 

Ameaças Globais e o Papel da ONU

 

Lula reiterou sua crítica aos líderes dos países que detêm assentos permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas, referindo-se a eles como “senhores da guerra”. Ele censurou os bilhões de dólares empregados em armamentos, recursos que, em sua visão, poderiam ser utilizados para erradicar a fome, resolver o problema energético e garantir acesso à saúde para toda a população mundial. O presidente destacou que “o Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências, sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas”. Para Lula, “ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado, defender que a paz faça prevalência sobre a força, é combate a fome e proteger o meio ambiente, é restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes”.

 

Em outro momento de sua fala, o presidente brasileiro alertou que a ameaça representada pela extrema-direita vai além da retórica, sendo uma realidade concreta. Ele mencionou que “no Brasil, ela [extrema-direita] planejou um golpe de Estado. Orquestrou uma trama que previa tanques na rua e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral”. Lula citou o Papa Leão XIV, que afirmou que “a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas”. O presidente concluiu que o papel dos progressistas é “desmascarar essas forças, desmascarar aqueles que dizem estar do lado do povo, mas governam para os mais ricos”.

 

O chefe de Estado brasileiro também ponderou que a democracia não é um ponto final, mas sim um processo que exige reafirmação diária, através da melhoria efetiva da vida das pessoas, para não perder sua credibilidade. Ele exemplificou a ausência de democracia em situações como “quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor de sua pele, quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher”. Lula finalizou este ponto com um chamado: “Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança”.

 

Compromissos Internacionais Próximos

 

Após cumprir sua agenda na Espanha, o presidente Lula segue para a Alemanha neste domingo (19). No país germânico, ele participará da Hannover Messe, considerada a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que nesta edição terá o Brasil como país homenageado. Durante a permanência na Alemanha, o presidente brasileiro também tem programada uma reunião com o chanceler Friedrich Merz.

 

A viagem europeia de Lula será concluída no dia 21, com uma breve visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, o presidente brasileiro se encontrará com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

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