Equipado com óculos de proteção e máscara, Agnaldo Noleto, de 56 anos, seleciona criteriosamente cada insumo para seu trabalho. Morador de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, ele começa sua rotina às 3h para iniciar a produção de miniaturas às 4h em sua oficina doméstica. Usando resina, madeira e tinta, cria réplicas em pequena escala de monumentos que, apesar de localizados a mais de 50 quilômetros dali, estão presentes em sua memória e afeto pela capital federal.
Brasília, que completa 66 anos, se encaixa nas mãos de Agnaldo enquanto ele projeta, monta, lixa e colore cada peça minuciosamente. A cidade se tornou inspiração constante durante seus processos criativos diários.
O artesão confecciona, semanalmente, pelo menos 850 itens, destinados à venda em feiras da cidade. Suas obras se transformam em lembranças para turistas e moradores locais. Apesar do tamanho reduzido dos objetos, os monumentos e palácios que reproduz ocupam grande espaço em sua memória. Entre todas as inspirações, a Catedral de Brasília se destaca; tanto pela imagem atual quanto pelo contato manual durante as madrugadas de trabalho.
Agnaldo recorda que seu primeiro emprego foi como vigilante de carros no estacionamento da Catedral quando tinha 14 anos, pouco depois de deixar Riachão, no Maranhão, para morar com a irmã em Brasília, em 1980. Na época, a capital federal completava apenas duas décadas de existência. Seus pais permaneceram no Maranhão.
“Minha família sofria na roça. Eu ajudava eles, mas acho que eu sempre quis mesmo era ser artista”.
Na infância e adolescência, Agnaldo produzia carrinhos de madeira e objetos de argila. Só mais tarde, incentivado por guias de turismo, passou a tirar fotos instantâneas e aprimorou sua atividade artesanal já adulto, ao descobrir a pedra-sabão. Como o material foi proibido devido ao amianto, ele adotou a resina. Aprendeu a montar as peças e a oferecer suas criações com o sorriso: "uma lembrancinha hoje?"
Ele destaca que o mercado de lembranças é significativo em Brasília e reafirma sua ligação com a cultura local, valorizando o artesanato como elemento identitário.
A primeira miniatura que produziu foi inspirada na escultura Os Candangos, que mede oito metros e está localizada na Praça dos Três Poderes, concebida em 1959 por Bruno Giorgi. Nas mãos de Agnaldo, a imponente figura ganha poucos centímetros, mas carrega memórias dele, da irmã e de tantos outros nordestinos que migraram para a capital.
Ele também tem apreço especial pela Catedral, concebida pelo arquiteto Oscar Niemeyer, famosa por suas curvas singulares.
“Eles eram artistas. Eu só copio. Mas, mesmo assim, nada é fácil. Todas as peças são complicadas. A Catedral de Brasília é muito difícil. Qualquer pessoa pode fazer, mas nunca na perfeição que se exige”, acredita.
Agnaldo monta cada miniatura individualmente, buscando alcançar um padrão para comercialização, o que permitiu que criasse seus seis filhos, todos nascidos em Brasília.
O ritmo de trabalho é intenso: entre segunda e sexta-feira, começa cedo e frequentemente atravessa a madrugada trabalhando. Aos fins de semana, posiciona sua banca em frente à Catedral, das 8h às 18h, estendendo-se enquanto houver turistas circulando.
Durante a semana, Agnaldo cede seu ponto à frente da Catedral para outra família de migrantes nordestinos, que comercializa as miniaturas que ele mesmo fabrica.
Nariane Rocha, maranhense de 44 anos, ficou responsável pela banca após a morte do marido, Marcelino, aos 64 anos, vítima de câncer no final do ano anterior. Ela convidou a nora, Michele Lima, de 42 anos e natural do Rio Grande do Norte, para ajudá-la a manter o negócio.
“Foi muito triste voltar a trabalhar sem ele. Ficamos por 10 anos aqui. Chamei minha nora para me ajudar”.
Michele revela seu apreço por Brasília, destacando o sentimento de segurança e o desejo de permanecer na cidade de forma permanente.
Ambas residem em Novo Gama, a mais de 40 quilômetros da Catedral, e almejam abrir uma loja própria, o que lhes permitiria trabalhar sem depender do clima. Em dias de chuva, é preciso cobrir rapidamente as peças com plástico e, ao fim de cada dia, todo o material precisa ser transportado para o carro.
Entre os projetos do futuro, está o desejo de cursar psicologia, motivadas pelo interesse em compreender e interagir com as pessoas, além da vocação para o comércio.
O espaço informal da praça em frente à Catedral reúne diversas barracas de artesãos. Alberto Correia, comerciante de 57 anos nascido em Paranã, Tocantins, e atualmente morador do Itapoã, periferia do Distrito Federal, relembra que produzia suas primeiras peças artesanais sentado no chão, de frente para a Catedral.
Ao lado de Alberto, Rodrigo Gomes, de Anápolis, Goiás, trocou o trabalho como mototaxista pelo ofício de replicar a arquitetura icônica de Brasília em miniaturas. Rodrigo se destaca por criar composições que reúnem vários monumentos sobre uma base que representa o mapa do Brasil, chamada por ele de “Mapa Candango”.
“Tudo aqui tem jeito de arte. A gente tem que ser criativo para chamar atenção. A cidade é um monumento. A gente pede para olhar para as miniaturas”.
Tânia Bispo, natural de Salvador e hoje moradora do Gama, administra uma barraca vizinha à de Rodrigo. Aos 58 anos, conta que iniciou sua trajetória como comerciante vendendo água de coco. Atualmente, seu marido assumiu essa função em outra parte da praça, enquanto ambos sustentaram seus quatro filhos com o trabalho nas bancas.
Morando em Brasília há três décadas, Tânia se sente parte ativa da história da cidade. Ela já trabalhou como diarista e afirma que, desde que encontrou sua vocação no comércio local, não se imagina vivendo em outro lugar.
“Já fui diarista e infeliz. Hoje não me imagino em outro lugar. Sou encantada por essa cidade grande”.