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Artistas usam gestos, ritmos e moda para interpretar Brasília

Mímicos, músicos e estilistas encontram na diversidade da capital inspiração para novas formas de arte

21/04/2026 às 14:27
Por: Redação

Brasília, ao longo de 66 anos, tem sido fonte de inspiração para artistas que buscam novas formas de expressar a essência da capital, muitas vezes sem recorrer ao uso de palavras. Desde o primeiro discurso proferido por Juscelino Kubitschek na inauguração da cidade, já se reconhecia a dificuldade em traduzir em linguagem verbal o significado e a emoção de ocupar a nova capital federal. Passadas mais de seis décadas, diferentes manifestações artísticas continuam a tentar captar a complexidade e a multiplicidade de Brasília, composta por influências de migrantes, expressões urbanas e uma arquitetura icônica.

 

O mímico Miqueias Paz, atualmente com 62 anos, é um desses artistas que faz da linguagem corporal um instrumento para retratar os matizes da cidade. Ao chegar em Brasília ainda criança, ele se deparou durante a adolescência com o teatro, especialmente aquele voltado para retratar as experiências de moradores periféricos e de migrantes. Sua atuação começou em Taguatinga, aos 16 anos, impulsionada por grupos teatrais itinerantes como o H-Papanatas. O artista passou a apresentar-se não apenas em palcos, mas também em espaços públicos e ocupações urbanas, levando sua arte diretamente à população e utilizando o gesto como ferramenta de conscientização sobre direitos sociais.

 

Segundo Miqueias Paz, sua escolha pela encenação física o expôs a situações de microviolência, incluindo abordagens frequentes por parte de policiais. Ele relata que as situações vividas no cotidiano, como ônibus lotados e dificuldades financeiras, passaram a integrar seu trabalho artístico, tornando-se o eixo central de suas apresentações.

 

"Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho".


 

Na década de 1980, ele ficou conhecido por celebrar o fim da ditadura no país ao realizar, na rampa do Congresso Nacional, um gesto que simbolizava um coração, o que lhe rendeu reconhecimento entre movimentos sociais e sindicatos. Atualmente, Miqueias Paz mantém o Mimo, um teatro situado na comunidade 26 de setembro, cujo objetivo é acolher e dar espaço a artistas ambulantes de Brasília.

 

Ritmos e tradições criados para a capital

 

A busca por traduzir Brasília também é observada nos palcos musicais. O grupo "Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro", idealizado pelo pernambucano Tico Magalhães, introduziu o chamado samba pisado, um ritmo que emergiu do impacto causado pelo Cerrado e pela própria história da cidade. A proposta era criar uma tradição para Brasília, considerada uma cidade inventada, com mitologias, personagens e festividades próprias. Inspirado nos ritmos nordestinos como cavalo marinho, maracatu nação, baque solto e baque virado, o samba pisado também incorpora elementos de outras manifestações culturais, formando uma sonoridade única.

 

Tico Magalhães ressalta que Brasília foi construída sobre um território marcado pela presença e pela memória de diferentes povos indígenas, além de receber pessoas de diversas regiões, o que, segundo ele, configura uma pequena diáspora brasileira.

 

"Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade".


 

Moda inspirada na arquitetura e no cotidiano

 

A influência de Brasília também se manifesta no universo da moda, especialmente nas coleções criadas pelo casal de estilistas Mackenzo, de 27 anos, natural de Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29 anos, de Planaltina. Ambos nasceram em regiões administrativas periféricas e desenvolveram peças inspiradas pelos elementos arquitetônicos da cidade. Felipe aprendeu a costurar ainda criança com a avó, enquanto Mackenzo, também músico, esboçava croquis inspirados nas paisagens vistas do ônibus. Eles têm laços familiares com a história da construção de Brasília, como tias baianas que trabalharam com Juscelino Kubitschek, e destacam a paixão pela arquitetura local.

 

Para eles, criar uma peça de roupa demanda conhecimentos comparáveis aos da arquitetura, levando em conta características como terrenos retos e curvas, uma analogia ao desenho do corpo e ao processo de engenharia aplicado à moda. A produção desses estilistas é encarada como uma homenagem às famílias que participaram da construção da cidade e, ao desenvolver coleções baseadas em Brasília, eles se inspiram no sonho grandioso que motivou a edificação da capital, reconhecendo as dificuldades enfrentadas por quem o viveu na prática.

 

As criações do casal também evocam referências aos símbolos da democracia, ao centro das decisões políticas, aos locais de protestos e manifestações culturais. Para eles, a meticulosidade e o drama estão presentes no processo criativo, que visa transformar elementos arquitetônicos em roupas, e manter viva a memória de tudo o que a cidade representa.

 

Formas e cores como expressão artística

 

A estilista Nara Resende, de 54 anos, formada em arquitetura, também utiliza referências de Brasília em seu trabalho. Ela afirma que a simplicidade das formas e a geometria presentes na cidade são elementos marcantes de seu processo criativo. Segundo Nara, a presença constante da arte e o contraste entre a natureza e o brutalismo das construções impactam diretamente sua inspiração, que nasce frequentemente das experiências vividas nas ruas e da observação do fluxo das pessoas.

 

A artista visual Isabella Stephan, de 41 anos, se destaca por trabalhos que transitam entre o figurativo e o abstrato, exaltando a alegria como tema principal. Inicialmente focada em telas, acabou transformando suas pinturas em estampas para vestuário, após vender seus quadros. Isabella observa que, apesar do concreto predominante na arquitetura da cidade e do branco que caracteriza Brasília, suas obras buscam transmitir o movimento e a vivacidade multicolorida do povo brasiliense por meio das cores.

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